“Você vai mudar de novo?”, “Por que não pára quieta com o cabelo?”, “Mas precisa ser rosa?”
Acho que toda vez que mudo a cor do cabelo, especialmente para uma cor mais “fora do padrão” — que normalmente costuma ser o rosa — escuto variações dessas perguntas junto com comentários como “seu cabelo fica tão melhor natural”, “nossa, mas seu cabelo está horrível hein?”…
Junto dessas falas em voz alta, também tem aquelas expressões faciais que entregam um certo julgamento. É fácil de ler os pensamentos por trás: “você tem 33 anos (quase 34 na verdade), não deveria estar pintando o cabelo de colorido mais”; ou pior: “por que você quer chamar tanto a atenção?”
A verdade é que mudar cabelo é a forma como me expresso e lido com os meus altos e baixos. E vou confessar: tenho um caleidoscópio de sentimentos dentro de mim e, às vezes, o mundo parece um pouco demais para lidar e me sufoca — inclusive, o rosa sempre vem quando estou em uma fase mais complicada nesse aspecto.
Muitas vezes, conforme os sentimentos vão ficando demais e vou ficando sobrecarregada, sinto como se estivesse sumindo em mim. É como se eu olhasse no espelho e mal me reconhecesse. Quando mudo o cabelo, é como se, de certa forma, voltasse a colocar os pés no chão.
Por isso, pode ter certeza que sempre que passo por uma mudança drástica, seja corte ou a cor, pode ter certeza que estou em uma fase que mal consigo me olhar no espelho sem querer chorar. Isso vai muito além da minha luta com minha aparência, porque além de detestar o que vejo por fora, também está difícil de lidar com o que está por dentro.
Porque autoestima vai muito além da aparência física… tudo está envolvido: a sensação de não ser boa o suficiente (para o trabalho, para as pessoas ao meu redor, para alguém no sentido de relacionamento, para os meus cachorros); de não conseguir fazer nada direito e por aí vai.
As mudanças de cabelo são a maneira que eu externo e lido não só com isso, como também com o mundo ao meu redor (guerras, violência, tem tanta coisa ruim acontecendo que eu mal consigo ler notícias). Essa é a parte em que o mundo me sufoca.
“Ah, mas mudar o cabelo não soluciona nenhuma dessas questões que você citou.”
Para mim ajuda, especialmente as internas. Mudar o cabelo, estar com ele na cor que preciso no momento me ajuda a sentir mais centrada, me faz gostar mais de mim um pouco e todo o processo de mudança me deixam melhor. Não é a cura para meus problemas, longe disso (e antes fosse), mas é um passo para uma melhora.
O que não ajuda é chegar em casa ou nos lugares com o cabelo rosa e ouvir que está feio, que gostavam mais de como era antes ou de que deveria pintar de outra cor. O que não ajuda é ouvir que quero chamar atenção, que fico melhor de jeito x ou y…
Claro, tudo bem não gostar de algo. Ninguém é obrigado a amar todas as loucuras que eu faço, longe disso. Mas é aquela coisa, também não precisa dizer que acha feio, que está feio. Isso afeta qualquer um, mesmo quem saiu do salão apaixonada pelo resultado. Mesmo quem 90% dos dias que se olha no espelho com o rosa/vermelho/preto e curte o que vê, aquele comentário vai ficar na cabeça, especialmente de cores que não são consideradas “normais”.
Quem tem cabelo colorido, especialmente se já passou de uma idade que isso é considerado “legal” (se é que isso existe, sinceramente, espero ser uma idosinha colorida e tatuada se um dia chegar nessa idade, haha), está acostumado a lidar com esse tipo de comentário, de ouvir críticas e receber olhares julgadores o tempo todo. E por mais que esteja feliz, por mais que ame, tem dias que algumas coisas acabam pegando, tem momentos e pessoas que acabam machucando.
Mas deixa eu fechar esse enorme parênteses que abri sobre comentários alheios desnecessários e voltar a focar no que a mudança de cabelo me proporciona, por que faço essas “loucuras” com tanta frequência e como elas me ajudam.
Lido com ansiedade, depressão e transtorno alimentar desde a adolescência e infelizmente essas questões não vão embora para sempre, elas sempre acabam voltando para assombrar em momentos mais delicados. Pelo menos no meu caso sempre foi assim.
Existem sim períodos que estou melhor, mas mesmo neles, ainda dependo do antidepressivo. Inclusive, a a única vez que tentei o desmame, não deu certo. E tá tudo bem, meu cérebro só não funciona bem sozinho, assim como a insulina ajuda a controlar o açúcar no sangue do diabético — e a gente não vê ninguém incentivando-o a parar de aplicar ou dizendo que não precisa dela, que é algo viciante, não é? (Sim, isso foi um shade para todas as vezes que ouvi meus pais julgando o fato de eu “ainda estar tomando Prozac”).
A terapia me ajuda muito também. Me ajudou inclusive a entender essa necessidade de mudar, de quando ela vem e como ela vem. Assim como também me ajudou a ver que está tudo bem fazer isso, especialmente porque não estou machucando ninguém ou me machucando (talvez só o pobre do meu cabelo, mas faz parte, a gente cuida, hidrata e ele segue firme na maioria das vezes).
A verdade é que o cabelo rosa me faz me sentir viva. Me faz sentir bem e leva embora a sensação de estar sumindo em mim, uma das coisas que mais odeio sentir.
Por anos, especialmente durante a adolescência, me senti completamente invisível e indesejada… e isso era péssimo, mas não era tão ruim quando comecei a sentir dessa forma dentro de mim, quando me olhava no espelho e não me via realmente. Tudo isso porque estava ocupada demais tentando deixar de ser invisível para os outros, tentando ser mais aceita, tentando me encaixar em um local onde eu não cabia, com pessoas que não eram para mim.
Hoje olho para trás e vejo que tudo isso tinha/tem a ver com o TEA, que essa sensação de estar desaparecendo era o fato de que eu estava constantemente tentando mascarar minhas peculiaridades, meus hiperfocos, meu jeito de falar e de agir… Tudo isso realmente me deixava invisível porque eu tentava ser algo que não era e nunca seria.
Essa necessidade de me encaixar desesperadamente passou, não preciso mais lutar tanto para mascarar quem/como sou (embora isso ainda aconteça de vez em quando, não vou negar) e aprendi a valorizar quem me aceita, quem me apoia. Mas às vezes meu pior inimigo (eu) vem falar coisas no meu ouvido que eu acredito e as inseguranças, medos, sensação de sumir em mim voltam com tudo.
Então eu preciso fazer algo para controlar essas sensações. E esse é algo é mudar meu cabelo.
Então sim, pinto demais meu cabelo. Sim, faço loucuras como pintar de rosa. De deixá-lo curtinho quando finalmente estou conseguindo deixar crescer de novo. Mas tudo isso faço por mim, para me sentir viva e para recuperar os pedacinhos que meu cérebro roubou, ou me fez esquecer.
Essas mudanças me trazem paz, uma sensação que eu existo, que não me perdi dentro de mim, que o mundo (interior e exterior) não me sobrecarregou totalmente. Estou aqui e tenho mais forças para continuar lutando contra minha própria mente. E não faço isso sozinha, tenho pessoas incríveis ao meu lado em todas as batalhas e vitórias, assim como também tenho profissionais incríveis do meu lado que me ajudam a cada crise. Mas poder fazer algo para me dar forças é muito melhor e mudar meu cabelo é esse algo.
Então que venha o cabelo rosa, que venham as próximas batalhas.
Acho que esse foi um dos posts mais pessoais que já escrevi e ao mesmo tempo que é assustador, também é um alívio colocar tantas coisas não só para fora (porque faço muito isso no meu diário), como para o mundo. ❤
Músicas que ouvi e inspiraram enquanto escrevia este post:


Um comentário em “Today is never too late to be brand new”