Semana passada estreiou o filme Uma Ideia de Você e eu fiquei chocada em como as pessoas que falaram mal usaram “fanfic” para falar mal e isso me deixou realmente incomodada (a ponto de precisar desabafar por aqui, haha).
Não porque não gostaram do filme quando eu adorei, porque gosto é aquela coisa né… cada um tem o seu. Fora que, convenhamos: comédia romântica (ou romcom, para apresentar um termo bastante usado nos dias de hoje) é um dos gêneros que as pessoas mais desmerecem e desdenham, mas não vou entrar neste quesito porque senão o post ficaria gigantesco.
Hoje na realidade quero desabafar sobre como quando se quer diminuir algo, a tendência é usar a palavra fanfic. Além de uma coisinha chamada etarismo (que não podia deixar de comentar, afinal é outra coisa que me incomodou muito nas críticas mais “pesadas”, já que pessoas disseram ficar com vergonha alheia por conta da idade da Solène, personagem principal).

Primeiramente, deixa eu colocar o trailer do filme para poder ajudar a entender do que estou falando, caso não saiba nada sobre ele, hehe:
Como eu mesma falei sobre o filme nas redes sociais, o algoritmo acabou jogando diversos comentários sobre ele e imagina a minha surpresa de como muita gente que não gostou usou fanfic como uma característica para diminuir o filme. Comentários do tipo:
“Parece uma fanfic”
“Que vergonha alheia, parece uma fanfic”
“Parece uma fanfic escrita por uma menina de 13 anos” — esses que colocavam a “idade” da escritora da fanfic como adolescente/pré-adolescente é o que menos fez sentido porque eu posso garantir que meninas dessa idade não iriam escrever a história no ponto de vista de uma mulher de 40 anos.
Isso muito vindo de perfis que claramente eram literários, que falavam sobre assuntos considerados “inferiores” como literatura dark, fantasia, romantasia e até nerdices. E confesso, foi isso que mas me doeu de ver. Porque a literatura ou até mesmo a mídia “para mulheres” sempre foi considerada inferior, sempre foi vista como algo bobo e sem conteúdo.

Então sim, eu preciso falar um pouco sobre o que é fanfic.
Porque, primeiramente, em uma questão mais rasa: por que aquilo que não é extremamente complicado ou um clássico tem que ser considerado inferior? A leitura é muito mais do que algo para reflexão, ela também é um fator importante para o entretenimento, para distrair a cabeça e para se divertir.
Isso não quer dizer que, por ser uma fanfic, o conteúdo não pode abordar questões importantes e proporcionar reflexões. Ter esse tipo de pensamento é preconceituoso e justamente o motivo deste post existir.

Muito além disso, a fanfic é um gênero que atrai leitores, que faz as pessoas não só começarem a gostar de ler, como também é de graça (porque até o momento, é importante lembrar que vender uma fanfic atribuindo/citando a obra original é plágio/ilegal). Enquanto existe toda a briga sobre o vazamento de PDFs de livros em grupos (outra coisa ilegal e imoral), uma fanfic deve obrigatoriamente ser de graça — caso ela cite as pessoas reais/obras em que foram inspiradas.
Ademais, muitos autores modernos, especialmente que vieram da era na qual a internet já era presente começaram suas carreiras como escritores de fanfic, a brasileira Babi Dewet foi uma delas… o primeiro livro publicado dela foi Sábado À Noite, originalmente era uma fanfic sobre a banda McFLY. Hoje, não só a Babi tem diversos livros publicados, como também tem obras adaptadas, como o aconteceu com o livro Um Ano Inesquecível, que teve seus contos transformados em filmes e o conto da Babi foi o Outono, dirigido por ninguém menos que o Lázaro Ramos.

Além da Babi, uma das autoras pop estadunidenses mais populares nos últimos anos, Cassandra Clare também teve suas histórias iniciadas como fanfics. Durante muitos anos, houve rumores que os livros dos Shadowhunters eram baseados em fanfics de Harry Potter — esse fato já foi negado pela autora, mas, ainda existem muitos rumores sobre isso, especialmente porque Clare foi uma pessoa non grata no fandom, mas isso só são fofocas e teorias.
Em resumo, usar o termo fanfic para se referir a uma obra como algo negativo é preconceituoso. E, para este post, li um trabalho acadêmico (cujo título é O gênero textual fanfiction e a formação de leitores) sobre o assunto que realmente resume muito o sentimento que quis colocar aqui:
“Delimitar um padrão para o que seria ou não considerado digno do consumo (…) é podar completamente as possibilidades deste universo”. Clique aqui para ler o trabalho completo e, se quiser pesquisar mais sobre fanfic na academia, é só jogar no Google, tem muitos trabalhos interesantes!

Em resumo, fanfic não é “xingamento” o fato de ser/parecer uma fanfic não é sinônimo da coisa ter sido ruim ou você não ter curtido o filme. Você não gostou da história, achou boba e ponto. O fato de ser a adaptação de um livro que era uma fanfic não tem absolutamente nada a ver com a sua opinião sobre a qualidade do filme.
Não me entendam mal, existem sim fanfics ruins. Assim como existem filmes ruins, livros ruins, séries ruins. Mas uma coisa não depende da outra.
Por fim, deixa a Anne Hataway em paz, galera. Sim, ela é vencedora de Oscar e fez filmes considerados “bons” para quem tem essa mentalidade que se não for cult, clássico ou que faz refletir é inferior, mas isso não significa que ela não possa fazer uma romcom. Essa ideia de que só porque um ator é premiado não pode fazer coisas leves e apenas para divertir é tão idiota.

Vamos nos permitir desgostar das coisas sem diminuí-las. E, acima de tudo, vamos aprender a entender que está permitido gostar e aproveitar conteúdos leves, que servem apenas para deixar o coração quentinho, proporcionar risadas e tirar as pessoas da realidade. Não tem nenhum problema nisso.
E acima de tudo, deixa mulheres de 40 anos viverem romances com membros de boyband 20 anos mais novos sem agir exatamente do mesmo jeito que as pessoas do filme: criticando, chamando de vergonha alheia etc. Achei que, em 2023, as pessoas iriam entender que é ok viver como quer, consumir o conteúdo que quer sem tentar diminuir… No filme, a idade, o fato do Hayes ser famoso e tudo o mais é a grande questão e impede a Sol de ser feliz. Será que essa vergonha alheia não é justamente o que o filme tentou criticar e apontar?

Joguei essa e saí correndo porque já me estendi demais.

