Por que deixei as traduções de lado?

Hoje é dia de falar um pouquinho sobre mim, hehe… como parei de publicar no Instagram por anos, bem como aqui também durante anos e depois decidi voltar, achei que seria bacana explicar por que meu conteúdo é do jeito que é. Ou seja, por que quem decidir acompanhar minhas leituras e postagrens vai encontrar a maioria dos livros na língua inglesa ao invés das edições nacionais (com algumas exceções), hehe.

Então, sem mais enrolação… senta que lá vem história!

Como falei ali em cima, se você for fuçar minhas postagens (seja aqui, no Instagram ou nas redes literárias), vai perceber que quase 90% das minhas leituras são de livros em inglês, mesmo aqueles que já foram publicados em português. Isso não aconteceu do nada, na realidade, há mais de 10 anos que só leio tradução de livros que não falo a língua, ou então de um ou outro em espanhol quando estou com preguiça. Em português, por outro lado, 90% das minhas leituras são de autoras brasileiras.

Mas por que, afinal?

Tudo começou em torno de 2015 ou 2016, quando os blogs literários estavam em alta, o Instagram e o Youtube começavam a ganhar cada vez mais força e acho que o TikTok ainda nem existia. Na época, eu e a Renata estávamos em pleno vapor na produção de conteúdo literário com nossos blogs — primeiro o Psycho Reader e, depois, o The Reading Season. Além disso, eu estava no início da faculdade de Tradução e achei que, além de tudo deveria começar a ler em inglês, afinal, pretendia trabalhar na área e, apesar de já ser fluente, queria melhorar ainda mais o vocabulário (hoje trabalho como revisora de texto em português, haha).

Frame de um vídeo que talvez nunca tenha saído

Ao mesmo tempo, havia outros fatores: naquela época, as edições em inglês eram mil vezes mais bonitas que as nacionais, especialmente os livros em capa dura (hoje sou fã dos paperback/brochura, já que são muito mais confortáveis para ler, haha), outro fator era o tempo: muitas das séries que eu acompanhava eram lançadas uma vez por ano, mais ou menos na mesma época, quase como um reloginho.

Uma das séries que nunca mais vi tradução e tive que terminar de ler em inglês

Por outro lado, esperar para um livro ser lançado aqui poderia levar meses além do lançamento em inglês ou até mesmo perder a chance de continuar lendo uma série porque ela deixava de ser traduzida. Acompanhar os lançamentos em inglês naquela época era muito mais seguro: maio e setembro com certeza vinha coisa nova (os meses dos grandes lançamentos).

Enquanto isso, do lado de produção de conteúdo literário também vivia algo que me deixava cada vez mais desanimada a lidar com livros traduzidos: as editoras. Aquele foi o período de crescimento de bookinfluencers. Blogs, perfis do Instagram e canais do Youtube surgiam cada vez mais e com eles, as parcerias com as editoras… mas era um espaço um tanto complicado.

Basicamente, os grandes canais/blogs eram convidados para parcerias, recebiam não apenas os livros, mas sim mídia kits de diversas obras, ou então caixas com os lançamentos das editoras (quem é dessa época com certeza sonhava em receber as caixas da Novo Conceito, haha)… no entanto, isso era apenas para os grandes produtores de conteúdo, quem era menor, acabava indo parar nas inscrições de parceria: uma ou duas vezes por ano, as editoras abriam espaço para inscrição e então selecionavam um grupo de influenciadores para participar.

Na época, parecia uma ideia maravilhosa e como era ainda bem no começo também havia a ilusão que a parceria significava automaticamente também receber as caixas literárias. Mas a realidade era bem diferente: não havia uma parceria ali. Não havia um contrato, não havia uma troca. Sim, havia o recebimento de livros “de graça”, mas, muitas vezes, era obrigatória a resenha para poder solicitar um novo no mês seguinte. Fora que havia momentos que a gente recebia livros que as editoras queriam focar, mas que não necessariamente era de interesse ou que combinava com o produtor de conteúdo.

Resumindo: uma vez por mês havia uma lista que nos ofereciam, a gente escolhia um livro com o dever de resenhar para poder solicitar outro no próximo mês. E óbvio, as resenhas não podiam ser totalmente negativas, afinal, estávamos ali para fazer propaganda do livro. Ou seja: mesmo se a gente não gostasse, quisesse abandonar não podia.

Algumas das poucas edições em português de livros recentes que tenho, todas compradas e de séries favoritas

E a parte da “parceria”? Eram apenas os livros e, teoricamente, nem de graça eles eram, porque a gente era obrigado a fazer a resenha (positiva). Não podia postar foto, era resenha. Enquanto isso, depois dos parceiros sempre terem conteúdos incríveis (digo isso porque acompanha diversos colegas que também eram parceiros), era muito, muito raro alguém receber um reconhecimento das editoras. Não havia repostagem, comentário… nada. Não havia uma troca entre as editoras e os parceiros, a não ser que eles fossem os grandes produtores, mas esses também não eram parceiros, eram contratados para falar dos livros, era publi. Eles quem recebiam as caixas.

Nem vou comentar sobre alguns e-mails de algumas editoras (que hoje nem existem mais) extremamente passivo-agressivos, ameaçando em relação a plágio, como se todo mundo estivesse pronto para fazer resenha copiando o colega. Ou então, quando havia um evento, do tipo pré-estreia de alguma adaptação de um livro da casa, era basicamente uma corrida para poder pedir para ir, já que eram muitos parceiros e poucos convites.

Acho que hoje cito apenas uma editora que não me arrependo da parceria, que continou me enviando livro por mais de um ano depois que ela acabou e sempre tratou os parceiros daquela época bem: a Darkside. Inclusive, ela é uma das poucas editoras que ainda compro traduções.

Sobre os eventos grandes: não fazia diferença nenhuma você ser parceiro de uma editora ou não. Se algum dia ganhei algum convite para Bienal foi por conta de ser cliente de algum lugar, não pela parceria. Também não fazia diferença nenhuma chegar nos stands dizendo que era blog parceiro da editora em uma Bienal da vida… ou seja: a gente ganhava sim livro, mas não era de graça porque era obrigatório uma resenha (sim, já escrevi resenhas genéricas de livros que não li), ou seja, na ilusão de ganhar livro, entregávamos nosso trabalho de graça.

Melhor evento que já fui… por conta também, mas conheci uma das minhas autoras favoritas!
Memórias de uma Bienal com a Fernanda Nia ❤ (100% bancada por mim haha)

O The Reading Season, o blog da época, ficou um ano com parcerias. Naquele período, as semestrais chegamos a renovar algumas, mas depois disso, especialmente depois da Bienal, decidimos não nos inscrever mais para nenhuma, mesmo que ter o selinho no blog de parceria era, de certa forma, alguma ter um reconhecimento para o blog/canal. Embora, parando para pensar hoje, não sei exatamente para quem era isso, talvez apenas para outros blogs, haha.

Ao mesmo tempo que tudo isso acontecia — e a frustração tomava conta — eu também estava mais concentrada em ler em inglês por causa da faculdade, então trocar os livros nacionais, de editoras que ignoravam os blogs parceiros não foi muito difícil. Para completar, as poucas vezes depois que tentei ler uma tradução duas coisas aconteciam: a primeira delas foi o azar de pegar livros que tiveram um trabalho muito ruim de revisão, talvez na pressa para lançar rápido; e também, algo que acontece até hoje: eu começava a ler e ficava imaginando como estava no inglês e como eu mesma traduziria.

E essa brincadeira era tão intensa que começou a a atrapalhar minha leitura de traduções. Hoje eu sigo com esse probleminha, ainda fico pensando como seria o original quando leio uma tradução e, um dos motivos de também ler pouco em português é que agora eu fico revisando o livro e isso pode me afastar demais da história. Porque sim, algo sempre acaba fugindo dos olhos do revisor e, se você trabalhando com texto cinco dias por semana, horas e horas, você acaba analisando sem querer a escrita.

Infelizmente, não consigo fugir disso, mas aprendi a desligar um pouco mais, mas confesso que esse é um dos motivos que não leio tanto em português. Em inglês, consigo focar na história ao invés de analisar cada aspecto da escrita — e não, se eu fizer resenha de algum livro nacional, essa análise não vai aparecer nela, é uma parte chata que, na maioria das vezes, quem não trabalha com revisão nem repara.

E foi aí que, a partir de 2016, minhas leituras em inglês migraram para a língua original e desde então não parei mais. Em português agora, só leio alguns livros de true crime, de línguas que não falo (meu sonho é aprender alemão só para poder ler os livros alemães, pensa em capas bonitas e com histórias que parecem incríveis!) e, claro, livros de autoras brasileiras. Por isso, que quando vou falar de algum livro, mesmo que ele esteja bem hypado aqui no Brasil, vou trazer a edição em inglês.

Só peço para que não me leve à mal porque falo de edições gringas ou leio poucos livros nacionais, mas é que realmente, meu trauma/ranço de um passado com editoras junto com o fato que eu fico trabalhando (e até procurando pelo em ovo) ao invés de ler acaba me deixando mais à mercê de literatura em inglês.

Mas sempre em minhas metas está consumir mais livros de mulheres brasileiras e pretendo alcança-las, só preciso real descobrir como desligar meu cérebro de revisora para aproveitar 100% a história, mas prometo que estou sempre comprando e ajudando nossas autoras! Tenho uma TBR enorme me aguardando!

Se você leu até aqui, viveu também a era de crescimento de criadores de conteúdo literário? Qual foi a sua experiência? Se não viveu e vive agora, as coisas melhoraram? Realmente espero que sim, mas o pouco que tive contato pelo Threads parece que não muito, mas não procurei saber muito a fundo, pois trauma, haha.

Enfim, se quiser conversar sobre o assunto vou adorar fazê-lo! ❤

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